Tudo o que precisa saber sobre Vulcan de Deuses Americanos

Deuses Americanos continua acrescentando importantes figuras ao seu panteão televisivo. Em “A Murder of Gods” conhecemos o incandescente deus Vulcan com uma história e estilo a que ninguém ficou indiferente.

Em um dos episódios mais abertamente políticos até à data, Vulcan surge como uma fúria da natureza perfeitamente adaptada ao mundo moderno. Uma bala de cada vez.

Leia mais se ficou curioso em saber mais sobre o personagem e a sua mitologia!

Quem é Vulcan na série?

Vulcan

Vulcan é o primeiro personagem que foi criado especificamente para a série, não existindo nenhuma menção ao velho deus no livro. Vulcan é o nome moderno deste deus originalmente conhecido na Roma Antiga como Vulcanus, onde era venerado principalmente como deus do fogo, dos vulcões e da metalurgia.

Na América de Neil Gaiman, Vulcan tem uma vida profundamente diferente dos outros velhos deuses que conhecemos até agora. O deus dos vulcões tem agora uma vida confortável em uma pequena cidade que o venera e onde possui uma fábrica de munições. A antiga divindade espalha a crença e ganha poder em cada bala fabricada, em cada gatilho pressionado em uma arma de fogo. Como o próprio Vulcan diz a Wednesday:

“Cada bala disparada em uma sala de cinema lotada é uma oração em meu nome.”

A personalidade jovial e alegre de Vulcan mascaram o seu cinismo de um deus que soube evoluir e continuar a ser relevante num mundo drasticamente diferente do da sua origem. Longe vão os tempos dos vulcões e do fogo primitivo. Vulcan renasceu graças à obsessão dos Estados Unidos com armas de fogo; como ele explica:

“Aqueles que veneram têm um vulcão na palma da sua mão, está cheio de orações em meu nome.”

A veneração a Vulcan na série tem ainda um outro detalhe macabro: sacrifício humano. Ocasionalmente, “acidentes” acontecem na fábrica de munições e alguns trabalhadores são consumidos pelas chamas das fornalhas. Isto é algo que acontece anualmente e Wednesday conhece Vulcan suficientemente bem para saber que isto é feito pelo velho amigo de forma a alimentar o seu poder.

A inspiração de Neil Gaiman na criação deste deus

estátua de Vulcan

Vários anos após o livro ter sido escrito, Neil Gaiman teve a ideia de criar Vulcan durante uma viagem pelo solo americano. O produtor Michael Green contou a experiência do autor à Entertainment Weekly:

“Ele foi uma nova adição que veio através de uma experiência que Neil teve. Ele estava passando por uma pequena cidade no Alabama, onde viu uma estátua de Vulcan. Era uma cidade de produção de aço. Com uma fábrica que tinha uma série de acidentes onde as pessoas morriam a trabalhar. Os acidentes continuavam acontecendo porque um atuário fez as contas e entendeu que era mais barato pagar os danos às famílias, do que fechar a fábrica durante tempo suficiente para ser reparada. Ocorreu a ele, que isso poderia ser a melhor definição moderna de sacrifício que poderia haver.”

Embora ainda sem confirmação oficial, vários fãs acreditam que a inspiração veio da cidade de Birmingham, estado do Alabama, onde existe uma estátua ao deus Vulcano. É provável que a fábrica da história que marcou Gaiman seja Sloss Furnaces, uma fábrica de produção de ferro em Birmingham.

Sloss Furnaces era visto como um local infernal para trabalhar, com vários problemas de segurança e com mortes acidentais constantes. Graças aos inúmeros trabalhadores que perderam suas vidas na fábrica, ela passou a ser considerada um sítio assombrado. Após os seus 89 anos de atividade, Sloss Furnaces fechou e atualmente é considerada um marco histórico nacional nos Estados Unidos.

Um deus, duas mitologias

Vulcan e Wednesday

A personagem de Vulcan é uma adaptação de Neil Gaiman do deus romano Vulcano. Mas milênios antes, Vulcano foi uma divindade adotada pelo antigo império romano baseada no deus grego Hefesto. A assimilação de deuses de outras civilizações foi uma prática comum na Roma Antiga e por várias outras civilizações, consistindo na adaptação de velhos deuses e na sua transformação para a nova cultura dominante.

Assim, falar de Vulcano é também falar de Hefesto, com o deus romano a ter muitas características do seu contraparte grego. Em ambos os casos existe uma ligação ao fogo em todas as suas vertentes: da criação nas fornalhas até o poder destrutivo dos vulcões.

A veneração a Hefesto / Vulcano tinha como base a gratidão e medo, dois lados da mesma moeda chamada fogo. Por um lado, o culto ao deus servia para agradecer o poder na batalha e na indústria, por outro tinha como propósito manter os incêndios e erupções vulcânicas longe da população.

Nas duas mitologias, esta divindade é venerada como o padroeiro da metalurgia e dos artesãos graças à lenda de que teria sido ele a ensinar os humanos os vários ofícios artesanais. Considerado o deus ferreiro, Hefesto era ilustrado como o criador de todas as armas e armaduras dos outros deuses do Olimpo.

Além das associações ao metal e fogo, quando Hefesto passou a Vulcano, o deus romano passou também a ser considerado a divindade da fertilidade masculina. Na Roma Antiga existia ainda o festival de Vulcano chamado Vulcanalia, que acontecia anualmente a 23 de agosto. Esta data escolhida ocorria em uma época do ano onde a chuva escasseava e os terrenos sofriam com um sol ardente, o que aumentava as chances de incêndio.

Durante o festival eram criadas enormes fogueiras onde os crentes atiravam pequenos peixes como sacrifício para honrar o seu deus. O significado por trás deste ritual é atualmente desconhecido.

Sua origem trágica

Hefesto

Hefesto é considerado um dos filhos de Zeus e Hera, os principais deuses do Olimpo, mas existem várias lendas gregas que contam como ele foi gerado apenas pela deusa Hera. De acordo com a história de origem mais popular, Hefesto nasceu disforme e com deficiências que horrorizaram sua própria mãe.

Não aceitando o seu filho como ele era, a sua mãe o jogou no oceano, onde ele viria a ser acolhido por ninfas. Tétis e Eurínome criaram o menino em uma caverna no fundo do mar e lhe ensinaram várias artes e ofícios. Com o passar dos anos, Hefesto se tornou em um mestre artesão capaz de todo o tipo de criação através do fogo.

Hefesto planejou se vingar da sua mãe e quando ele foi novamente aceite no Olimpo, ele colocou seu plano em prática. O filho disforme de Hera criou um trono dourado para sua mãe que continha uma armadilha. Quando a deusa sentou no trono, ela ficou aprisionada e somente ele tinha a chave para a libertar. Apesar de vários deuses terem intervindo, apenas Dioniso conseguiu a chave quando embebedou Hefesto.

Apesar deste plano vingativo, o filho rejeitado permaneceu no Olimpo e onde viria a ter o seu próprio palácio. Aqui ele criava toda as maravilhas para os deuses viverem luxuosamente, forjando as melhores armas e armaduras, e construindo para si mesmo máquinas que o ajudavam no seu trabalho.

Mais tarde, Hefesto se apaixonaria e casaria com Afrodite, mas esta não seria uma união feliz. Suspeitando das traições da mulher, o deus do fogo criou uma rede dourada para apanhar Afrodite e o amante. Quando a apanhou em flagrante com o deus Ares, Hefesto os capturou na rede e levou os adúlteros até os outros deuses para serem julgados.

Mas ao invés de criticarem os amantes, os deuses riram de Hefesto e ridicularizam o deus por ele ser feio e deficiente. Esta lenda do casamento mostra Hefesto como uma figura do ridículo na mitologia grega, onde ele era escarnecido por ser um deus considerado fisicamente menor.

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