Esqueçam os super-heróis, o poder sobrenatural do Tentáculo ou uma Claire Temple preparada para curar o mocinho ferido. Justiceiro é uma série profundamente diferente de todas as que conhecemos até agora no universo Marvel / Netflix. Mas será que funciona?

Confira a nossa opinião sem spoilers sobre a mais recente versão de Frank Castle.

Bem-vindo a casa, Frank?

Justiceiro

Depois da sua estreia na segunda temporada de Demolidor, o Justiceiro retorna em uma série solo que pinta um quadro complexo do homem que veste a caveira. Este Frank Castle não é o mesmo que conhecemos anteriormente, apresentando vários tons de cinza e uma grande preocupação do roteiro em explicar como ele se transformou em uma máquina de matar.

Um dos maiores temas desta primeira temporada é o retorno a casa. Todos estão buscando o seu lugar no mundo, uma casa que possam chamar sua. Mas o que é casa para quem retorna da guerra? O que é casa quando o luto é uma presença constante no cotidiano? O que é casa para quem nunca a teve?

Como complicar excessivamente uma história de origem

Justiceiro

Este é o principal problema da série que pega em um personagem como o Justiceiro e coloca ele no centro de uma vasta conspiração governamental. Para que todos os principais personagens e tramas se relacionem entre si, é apresentada uma explicação elaborada para o assassinato da família Castle, complicando excessivamente a cruzada do anti-herói.

Não há nenhum problema em criar uma história complexa se ela servir ao personagem em primeiro lugar e se respeitar os elementos da origem. Mas não é isso que acontece com essa série. Ao transformarem a origem do Justiceiro, acabam por retirar muito da sua essência e desvirtuar a sua identidade. Ao contrário do que promete o primeiro episódio, este não é o Castle que abate sem misericórdia os mafiosos e os gangsters. Rapidamente entramos numa sucessão de episódios tentando acompanhar a teia governamental e a corrupção profunda dos Estados Unidos da América.

Esta complicação leva ainda a que os episódios do meio da temporada se arrastem, desenvolvendo pouco a história. Isto não é nada de novo para quem assiste às séries Marvel / Netflix, já muito foi falado sobre a problemática fórmula de 13 episódios.

Violência cuidadosamente calculada, o trauma da guerra e o amor americano pelas armas

Curtis e Lewis

Muitos poderão ficar chocados com o primeiro episódio e a violência explícita demonstrada, mas raras vezes voltamos a assistir a cenas como essa ao longo da temporada. A verdade é que essas cenas são importantes e mostram sem receio o animal feroz que realmente é Frank Castle, algo que é brutalmente glorioso de assistir. Curiosamente, a exploração detalhada do homem que dá origem ao Justiceiro, parece quase ser um pedido de desculpas pela violência que assistimos.

Mais uma vez, isto está relacionado com a dificuldade do roteiro apresentar sem pudores o seu protagonista, reservando momentos de brutalidade para depois o envolver na névoa política.

O estresse pós-traumático é um dos grandes enfoques da série e algo que é feito de forma excepcional. Através do grupo de Curtis Hoyle – a voz da razão com uma excelente interpretação de Jason R. Moore – conhecemos diferentes soldados e como todos são diferentes na forma de lidar com o trauma. Dentro deste tema, a trama de Lewis Walcott (Daniel Webber) é contada com mestria, em um fascinante retrato que começa lentamente mas retém a nossa atenção devido ao seu realismo e impacto das consequências da guerra.

Em uma série violenta e americana como esta é inevitável o debate sobre as armas. Esta questão é explorada de forma cuidadosa, nunca escolhendo lados mas oferecendo pouca substância na sua mensagem difusa.

Jon Bernthal é ótimo no seu papel

Frank e Karen

Bernthal já tinha provado anteriormente estar confortável na pele de Castle mas é na sua série solo que ele tem chance de se mostrar em pleno. Como assistimos em Demolidor, Bernthal volta a mostrar o quão assustador pode ser quando se transforma em máquina de matar e é irrepreensível nesse registro.

Algo de novo é a sutileza com que ele também se mostra vulnerável, seja num sorriso sonhador quando pensa em Maria ou na expressão do seu sentimento de culpa quando é confrontado com o fato de não ter sido o melhor pai ou marido que podia ser. É junto de Karen Page que vemos outra faceta de Castle, a mulher que o aceita e o defende, retomando assim a ligação complexa que se tinha iniciado anteriormente em Demolidor. Deboran Ann Woll tem aqui mais uma interpretação sensacional da sua Karen, sendo claro o trauma que ela carrega após os acontecimentos de Os Defensores – e como isso a aproxima ainda mais de Castle.

Jon Bernthal é um dos melhores pontos positivos de Justiceiro e é visível o seu entendimento do personagem. Ele é o ator certo para demonstrar a dualidade eterna de Frank: o homem dedicado de família com um irremediável gosto por morte e vingança.

Microchip é a grande revelação da série

Microchip

Se há algo muito positivo saindo de toda a trama de conspiração é a história de Microchip e a sua ligação ao Justiceiro. Ebon Moss-Bachrach é fantástico na sua interpretação de David Lieberman, o Microchip, entregando ao personagem uma sensibilidade e força que o tornam um dos personagens mais interessantes da série.

O seu confronto diário com Frank cria lentamente um duo improvável que é impossível resistir, uma amizade feita com muitas dificuldades que adoramos assistir. Mas é no seu papel de pai e marido ausente que Moss-Bachrach brilha, dando ao seu Microchip uma dimensão comovente na sua condição de fantasma aprisionado.

Possibilidades em aberto

Justiceiro

No final da primeira temporada de Justiceiro, são vários os caminhos deixados em aberto para uma possível (e provável) continuação. Seria justo e importante assistir a um novo capítulo de Frank Castle, continuando com seu registro independente mas aprendendo com o que não funcionou.

Enquanto isso não acontece, o Justiceiro continuará tentando achar seu lugar no mundo. Uma bala de cada vez.