Crítica Logan: o filme brutal e sublime que Wolverine merecia

Logan não é um filme fácil de assistir para os fãs dos X-Men. Sejam eles apaixonados pelas histórias dos mutantes em quadrinhos, desenhos animados ou filmes. Para eles (eu incluída), este filme vai doer, mas é também o filme que sempre quisemos ver do Wolverine.

Crítica sem spoilers.

Esqueça tudo o que conhece sobre filmes de super-heróis

5 estrelas

Imagine um filme de super-heróis, e não importa se é Marvel ou DC. Agora pense nas capas, os efeitos visuais surpreendentes, as lutas CGI magníficas, as ligações entre os vários filmes e as mil e uma referências. Imaginou? Ótimo. Agora esqueça tudo isso.

Logan não é nada disso. Logan é um animal cinematográfico completamente diferente do que estamos habituados a assistir. Com a ausência das várias marcas tradicionais de um filme de super-heróis, você se esquece que está assistindo a um filme desse gênero.

Isso não significa que Logan é melhor que os filmes tradicionais de super-heróis, mas é simplesmente diferente, ao descartar tudo o que podíamos esperar dele. E o mais impressionante é que o filme consegue fazer isso sem ser pretensioso ou cair em artifícios intelectuais sem substância. Com uma marca de autor discreta mas integrada em cada cena, o diretor James Mangold conseguiu alcançar um feito para poucos.

Diferença entre estilo sombrio e realismo

Laura e Logan

Seria fácil para um filme como esse se deixar dominar por um estilo gritty forçado, sem espaço para emoções reais. Logan foge desse estilo sombrio artificial, escolhendo antes contar sua história por uma lente mais realista.

Mas não se deixe enganar: essa é uma história crua com vários tons de tristeza e envolta em uma escuridão permanente. Desde os primeiros minutos que entendemos que esse não é o Wolverine ou o Professor Xavier que conhecíamos, e não só porque estão mais velhos.

A tragédia que se abateu sobre os mutantes está presente ao longo de todo o filme e marca o tom pesado de Logan. Mas o filme, apesar de tudo, é um longa inspirado em histórias de quadrinhos.

Isso se traduz em momentos de pausa, onde o humor e a esperança encontram o seu lugar. É um lugar frágil, mas a visita é sempre bem-vinda, não se estendendo demais. Quando o humor surge é frequentemente derivado das tensões entre a família disfuncional de Wolverine, Charles Xavier e Laura.

Não são os X-Men, mas são uma família

Charles e Logan

O melhor dos X-Men sempre foram as relações entre os vários mutantes com origens diferentes, pessoas descobrindo a sua identidade numa nova família. Logan não tem os X-Men mas a mensagem continua presente, permanecendo a grande bandeira de Charles Xavier.

Desde o início, o filme se dedica à exploração dos laços familiares entre Wolverine e o Professor X. A relação entre eles não é fácil, considerando as personalidades em causa e o apocalipse mutante que assolou o planeta. Mas cada diálogo entre eles é profundamente genuíno, chegando até a uma crueza que não se esperava. Eles são Logan e Xavier mas podiam ser uns quaisquer pai e filho profundamente marcados pela crueldade da própria vida.

Eis que chega Laura, também conhecida como X-23, introduzindo uma nova variante a essa dinâmica familiar. Curiosamente, a sua presença nunca é sentida como algo forçado no roteiro, sendo impossível não ficar fascinado com as habilidades da mutante.

O tempo não perdoa

Wolverine

Um dos temas de fundo de Logan é o tempo, esse personagem invisível e sem misericórdia. É o tempo que clama pela mente de Charles Xavier e pelo corpo de Wolverine, mostrando sinais de uma trágica ironia.

O tempo também se manifesta através da relação entre Laura e Logan, o velho Wolverine e (possivelmente) a futura Wolverine. Dois lados da mesma moeda, com mais de um século a separar os dois, e ainda assim com tanto em comum.

Uma das melhores vertentes do filme é exatamente essa relação tumultuosa entre o velho e a criança, ambos sem saberem como lidar um com o outro. Essencial nesta união é Xavier, o eterno professor que vê neles os seus últimos alunos e descendentes.

Sim, o filme é realmente violento

Laura

Nos filmes X-Men nunca assistimos Wolverine realmente libertar toda a sua raiva e mostrar o animal assassino que é. Em Logan, os animais saem todos da jaula e o filme não receia exibir todo o sangue e violência que isso implica.

Wolverine e Laura usam suas garras de forma grotesca, com cenas de combate verdadeiramente viscerais das quais não queremos desviar o olhar. Com a escala de efeitos especiais reduzida, cada golpe desferido é sentido em toda a sua brutalidade.

O veterano Patrick Stewart e a pequena Dafne Keen

Professor Xavier

Mais uma vez, Patrick Stewart não desilude. Sua atuação como Charles Xavier no seu estado mais frágil é dotada de uma sinceridade profunda. É notório o quanto Stewart ama esse personagem e se entrega totalmente a ele, encarnando Xavier com toda a graça e dignidade que merece.

Dafne Keen é a definição de menina prodígio. Ela é absolutamente surpreendente, sendo capaz de estar à altura de Hugh Jackman (especialmente em uma cena exigente) e não vacilando por um segundo. A pequena atriz domina a expressão não verbal, mostrando uma variedade de emoções apenas com seus olhos.

O legado de Hugh Jackman

Hugh Jackman

17 anos depois chega o fim de Hugh Jackman como Wolverine e parece impossível imaginar outro no seu lugar. Não há palavras para descrever o que Jackman fez com esse último filme, é de uma dedicação e paixão sem paralelo; o ator australiano sempre declarou que deve a sua carreira ao mutante, e ele atua em Logan como tal.

O seu legado deixa uma larga sombra que cairá sobre quem vier (afinal, isso é Hollywood) a desempenhar o novo papel.

Obrigada Hugh Jackman.